BONECOS ANIMADOS

BONECOS ANIMADOS

Boneco Animado é a designação genérica, em português, que se dá a todo o tipo de Bonecos usados em Teatro de Bonecos como é o caso dos Fantoches, das Marionnettes, dos Marotes, das Sicilianas, etc. etc.

Actualmente existem autores que preferem a designação genérica de Formas Animadas referindo-se, deste modo, ao vasto universo de formas que, hoje em dia, são utilizadas em Teatro de Bonecos.

Entretanto, há quem considere que as Formas Animadas podem ter o seu lugar no Teatro de Objectos, sendo que “Boneco Animado” é a designação mais correcta, e mais usada para todas as Formas Antropomórficas, Zoomórficas ou Neutras utilizadas em Animações e Espectáculos.

As primeiras representações de Bonecos Animados eram Antropomórficas (à imagem do Homem) e assim se mantiveram durante séculos até serem introduzidas representações de seres mitológicos e de animais.

Os primeiros Bonecos Animados de que há referência histórica eram manipulados por fios (Bonecos de Fios) tendo posteriormente surgido os Bonecos de Varão (Bonecos manipulados por cima através de um varão adaptado à cabeça), os Bonecos de Varetas (Bonecos manipulados por baixo através de varetas), as Sombras (Figuras recortadas em couro, madeira ou cartão que são manipuladas atrás de um lençol), ou os Bonecos de Luva (Bonecos manipulados interiormente pela mão do actor) tendo, ao longo dos séculos, surgido os mais diversos tipos de Bonecos que tiveram, em cada país e em cada época, designações diferentes.

Em Portugal os Bonecos Animados mais comuns foram os BONIFRATES (Bonecos de Varão que surgiram em Portugal no Séc. XV e que, no Séc. XVIII deram vida às Óperas de Bonecos de António José da Silva – O Judeu), e os Fantoches, mais tarde também conhecidos por Robertos (Bonecos de Luva), que durante décadas deliciaram crianças, jovens e adultos nas Praias, Feiras e Termas de norte a sul de Portugal.

Estes Bonecos existiram, exactamente com as mesmas características em vários países e foram designados, em França, por Guignol, em Inglaterra, por Punch, em Itália, por Pupi, em Espanha, por Titeres etc.

O Boneco de Luva é, tradicionalmente, composto por uma cabeça, um corpo e duas mãos. A cabeça e as mãos eram esculpidas em madeira e o corpo podia ser apenas uma simples camisa, ou luva, colada, cosida, ou atada ao pescoço.

Com a invenção da pasta de papel e da pasta de madeira as cabeças passaram a ser moldadas nestes materiais e o Boneco de Luva passou a ser muito mais acessível permitindo a sua utilização nas Escolas por professores, educadores e crianças.

O Boneco de Luva é de fácil confecção, de simples manipulação, permite a manipulação de dois Bonecos por Bonecreiro, e possibilita diálogos vivos e animados que divertem tanto os manipuladores como os espectadores.

A maioria dos Bonecos Animados que vemos na televisão, são Bonecos de Luva, ou Bonecos Mistos de Luva e Varetas (como os Marretas). Alguns destes Bonecos são fabricados em esponja e tecido, outros são confeccionados em espuma de borracha e/ou látex através de moldes e com mecanismos internos de articulação dos olhos mais ou menos sofisticados. Pela sua expressividade e facilidade de manipulação, os Bonecos de Luva são, sem dúvida, os mais utilizados em todo o mundo, sobretudo na Televisão e no Cinema

O Boneco de Varetas era tradicionalmente composto por uma cabeça enfiada numa cruzeta de pau e por dois braços articulados.

A cabeça era esculpida em madeira e os braços eram dois estiletes de madeira articulados pelo cotovelo. O corpo era uma simples cruzeta de pau coberta de tecido, na qual se enfiava a cabeça, e em cujos “ombros” eram atados os braços. A cruzeta era coberta por um tecido para simular o corpo. O Boneco é seguro pela extremidade mais longa da cruzeta e os braços são manipulados por duas varetas (de madeira ou de arame) que estão fixas às mãos do Boneco.

Pela sua “rigidez de postura” e maior dificuldade de manipulação, os Bonecos de Varetas, só surgiram em Portugal no Séc. XX, embora tenham sido sempre bastante comuns no Oriente.

O Boneco de Fios era tradicionalmente um Boneco esculpido em madeira (embora primitivamente tenha sido moldado em bronze) com articulações na cabeça, nos braços e nas pernas. Este tipo de Boneco é manipulado por um número variável de fios presos a uma cruzeta.
Pela complexidade de confecção e extrema dificuldade de manipulação, os Bonecos de Fios, só muito recentemente começaram a ser usados em Portugal.

Os Bonecos de Fios (alguns Bonifrates e as também conhecidas, nos países francófonos, por Marionnettes, do francês “Petites Maries” – Mariazinhas, ou talvez derivado do Bonecreiro italiano Marion – “Os Bonecos de Marion”) têm vindo a evoluir ao longo dos séculos e, actualmente (devido à sua sofisticação), para além de exigirem um conhecimento técnico rigoroso de como devem ser feitas as articulações e colocados os fios, exigem também muito cuidado na arrumação, para que os fios não se emaranhem.
Para além disso, este tipo de Bonecos, necessita de um treino constante e persistente para a aprendizagem da sua manipulação.
Para conseguir manipular, correctamente, um Boneco de Fios poderão ser necessários muitos anos de aprendizagem.
Dependendo do tipo, da qualidade do Boneco, e da quantidade de fios (que podem ser mais de 15 fios, em cruzetas triplas), para conseguir manipular na perfeição, um Boneco de Fios, poderão ser necessários entre 5 a 10 anos de treino intensivo.

Pelas inúmeras dificuldades técnicas e artísticas que apresentam, os Bonecos de Fios (Bonifrates de Fios), com a morte de António José da Silva, a partir do Séc. XVIII, deixaram de ser utilizados em Portugal, entraram no esquecimento, e só ressurgiram no nosso país (vindos da Europa, como se de uma novidade se tratasse!) em finais do Séc. XX e, apesar de terem começado a ser reutilizados em pequenas animações, raramente são usados em Espectáculos.

O Boneco de Varão era, tal como o Boneco de Fios, tradicionalmente esculpido em madeira, mas com articulações mais simples nos braços e nas pernas.

Mais popular, menos sofisticado, muito mais simples de fabricar, permitindo inclusivamente a manipulação de dois Bonecos por cada Bonecreiro e, na maioria dos casos, bastante mais tosco que o Boneco de Fios, o Boneco de Varão caracteriza-se pelo facto de ser suportado por um varão (arame) adaptado à cabeça (tal como os primitivos Bonifrates, as primitivas Marionnettes, e os típicos Bonecos de S. Aleixo).

Sendo muito mais simples de confeccionar, e bastante mais fácil de manipular, com ou sem fios nos pulsos, o Boneco de Varão foi, e continua a ser, muito popular e muito utilizado (embora com algumas variantes) em Itália (Sicilianas), em Franca (Liégeoises) e até em Portugal (desde os primitivos Bonifrates, do Séc. XV, até aos elaborados Bonifrates usados por António José da Silva nas suas Óperas de Bonecos).

Actualmente muitos Bonecreiros utilizam Bonecos Mistos como por exemplo:
1 – Bonecos de Luva e Varetas
2 – Bonecos de Luva e Mesa, etc. ….

Estes Bonecos Mistos, porque admitem outro tipo de possibilidades artísticas que os Bonecos de técnicas simples nem sempre permitem, são cada vez mais utilizados na constante procura de um Boneco Animado Ideal.

Ao contrário do que usualmente se pensa, o ANCESTRAL BONECO ANIMADO PORTUGUÊS não são os FANTOCHES (uma adaptação relativamente recente do italiano Fantoccino), nem os ROBERTOS (Fantoches relativamente recentes, cujo personagem principal era o Roberto Diabo) mas sim os BONIFRATES (“Os Bons Irmãos” – Bonecos de Varão e de Fios que surgiram em Portugal no Séc. XV, e que, no Séc. XVIII, foram usados, com enorme sucesso, nas Óperas de António José da Silva).

Pelo simples facto de serem apresentados na rua, nas Praças, nas Feiras, nas Praias e nas Termas, de norte a sul do país, os FANTOCHES e os ROBERTOS (apesar de historicamente serem muitíssimo mais recentes e até de qualidade artística inferior), acabaram por ofuscar, e até levar ao esquecimento, os ancestrais e clássicos BONIFRATES (que usualmente só eram apresentados em Teatros).

Em termos de designações não nos parece culturalmente ajuizado, que um povo com séculos de História, com uma cultura e uma língua próprias, com mais de 500 anos de Teatro de Bonecos, e com um Boneco Animado ancestral e clássico (em tudo semelhante ao que de melhor se fez, durante séculos, pela Europa fora), deva (por “questões de moda”) abdicar do seu Património Cultural e optar por quaisquer estrangeirismos, rejeitando deste modo, o seu Património Artístico, e a sua língua maternas.
Nenhuma Nação adere, de livre vontade, a quaisquer estrangeirismos, que obliterem e substituam o seu Património Cultural por outro, vindo do exterior.
O que é usual, e ajuizado, é assimilar culturas e designações, sobretudo quando elas não existam, anexando-as, mas nunca rejeitando e substituindo o Património Cultural e Linguístico autóctone.
É normal que os Povos tenham orgulho no seu Património Cultural e Artístico, e na sua Língua, porque é isso que os une e os identifica como Nação.

Como bom exemplo do que afirmamos, encontramos, no Brasil a designação de “Bonecos Animados” para denominar os Bonecos Animados na sua generalidade.
O Povo Brasileiro (cujo idioma está, justificadamente, repleto de estrangeirismos) demonstrou, assim, a sua coragem intelectual e o respeito pela sua identidade linguística, manifestando-se bastante mais fiel à língua materna do que os próprios pais, que continuam envergonhados de si mesmos, renunciando, de ânimo leve, à sua identidade cultural e deixando-se facilmente colonizar por outras culturas.

Mesmo ao nosso lado temos o Povo Espanhol, que nunca abdicou dos seus ancestrais e genuínos TITERES embora, ajuizadamente, tenha integrado no seu vocabulário outras denominações…

Verificamos, pois, que Espanhóis, Ingleses, Alemães, Holandeses, Italianos, Gregos, Russos, Americanos, Mexicanos, Brasileiros, Argentinos, Chineses, Tibetanos, Javaneses, Hindus, Japoneses, etc., etc., todos os povos e todos os países são fieis à sua Cultura, têm as suas designações próprias para os seus Bonecos Animados, e nenhum deles rejeitou ou abdicou do seu Património Artístico, Cultural e/ou Linguístico para o substituir por qualquer estrangeirismo, viesse ele donde viesse.

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